Jun 5, 2014

Por que o país dos Soviets?

Um monte de gente me pergunta o por quê do país dos Soviets. Porque o país dos Soviets foi o primeiro Tintin, a primeira vez em que um repórter acompanhado de um cachorro saiu pelo mundo.

Não estou defendendo nem Stálin nem os gulags. Mas, no tempo do país dos Soviets, o bem e o mal eram mais claros. As nuances eram mais exatas. Hoje estamos na era do relativismo total, um tempo em que todo mundo tem opinião e direito de se fazer ouvir sobre qualquer coisa (eu inclusive).

Quando uma voz age para calar a outra conscientemente, de modo a impedir que ela retrate sua visão da verdade, estão claras quais são as intenções. E esse tempo já passou. Hoje há mais obscuridade, mais dificuldade de entender o jogo. Eu quero resgatar, na minha voz, a clareza do tempo do país dos Soviets. Eu, que também me perdi entre tons de cinza, quero resgatar o preto e o branco, sem deixar de lado a complexidade do trajeto de um até o outro. Não é fácil manter uma identidade. É pra isso que criei o país dos Soviets.

Em que cavernas vivemos nós?


Após tantas gerações de inovações tecnológicas, aparentemente o ser humano não poderia ser mais livre. Ele tem acesso a plataformas colaborativas de construção do conhecimento, ele tem acesso a uma quantidade maior de informações para considerar em seu processo de tomada de decisões, e mesmo muito mais opções para escolher quando está decidindo. As fronteiras nacionais caem por terra quando o assunto é fazer novos amigos, ouvir música, ver filmes ou fazer compras: a partir de uma única tela, desenrola-se todo um universo diante dos olhos. Os limites se tornaram tênues. Faz sentido imaginar que possamos ainda estar encerrados em cavernas? Terá o célebre texto de Platão se tornado datado, podendo ser deixado de lado, como uma lição já superada? Ou as interfaces providas pela tecnologia são, também, capazes de criar cavernas?

Em 2014, a venda de smartphones e de tablets ultrapassou a quantidade de laptops e desktops vendidos no mesmo período. Os consumidores estão demonstrando que as suas necessidades são melhor supridas por dispositivos móveis, que trazem, além da portabilidade, o aumento da disponibilidade do indivíduo para contatos de toda sorte. Mais uma vez, evidencia-se a liberdade, a amplitude de acesso, a abertura aos caminhos. De que forma, porém, as pessoas se relacionam com estes dispositivos tecnológicos?

As possibilidades trazidas por estes equipamentos abarcam diversas instâncias das nossas vidas. É possível trabalhar no smartphone, divertir-se no tablet, ouvir músicas e também falar com os amigos por meio das redes sociais. Esta elevada abrangência tem feito com que, cada vez mais disponíveis para os contatos, as pessoas gastem cada vez mais horas interagindo com os dispositivos,que atuam progressivamente como interfaces entre pessoas. Com o aumento da dependência em relação à tecnologia para interagir com o outro, vemos cada vez mais sombras da realidade, imagens cuidadosamente construídas para distanciar o objeto de sua concretude. As relações passaram a ser dadas de "perfil" para "perfil" e não mais de pessoa para pessoa. Neste pequeno muro, tantas maravilhas são exibidas...

Nesta curiosa dinâmica de interação, mediada por interfaces fragmentadas e distorcidas, destaca-se um outro dado: a realidade se evanesce por falta de se olhá-la mais diretamente. Porém, como fazê-lo, se, para digitar num smartphone, é preciso se manter de cabeça abaixada, de olhar fixo? Neste momento, o mundo ao redor não pára de se transformar; mas, para o sujeito dependente da sobrevivência digital, a "cabeça imóvel durante toda a vida" o faz tomar por real a sombra de realidade na qual ele vive.

Infelizmente, a sobrevida digital nada mais é do que a sombra de um objeto. É fabricada com um nível de distorção do real personalizado de acordo com o desejo de quem o cria. Parece, portanto, que a metáfora da caverna não caducou: no contexto social contemporâneo, o excesso de interação com o universo digital, que isolou os seres humanos e fez com que as relações se tornassem mais volumosas ao mesmo tempo em que superficiais, criou cavernas. E nelas, sob a ilusão da liberdade, vive-se, em solidão, a sombra de um mundo concreto.

Existe saída desta caverna? A retomada das interações humanas, não mediadas eletronicamente, é a saída. De tantas amizades virtuais, quantas se sustentam quando um olhar encontra o outro? Ao se desconectar um pouco do mundo virtual, os problemas da realidade se apresentam: quando não há "perfil" atrás do qual se esconder, as insatisfações vêm à tona, e é preciso lidar com elas. Para olhar o sol, é preciso, antes de mais nada, erguer a cabeça e observar ao redor.